Acessibilidade Arquitetônica e Hipersensibilidade Sensorial: por que é necessário considerar todos os sentidos humanos na construção de espaços inclusivos?

Por Priscilla Catanho.

Quando falamos em acessibilidade arquitetônica, é comum pensarmos em recursos como rampas, pisos táteis, antiderrapantes, elevadores, banheiros adaptados, calçadas rebaixadas, sinalização adequada, informações em braile, audiodescrição e outros recursos que auxiliam na orientação e na comunicação. Mas e os estímulos sensoriais olfativos?

Será que podemos considerar como plenamente acessível, um ambiente que contemple recursos sensoriais táteis, visuais e sonoros, mas que ignore que o olfato é tão importante quanto os outros órgãos do sentido?

Em agosto, movida pela curiosidade, visitei a CASACOR – uma mostra de design de interiores, paisagismo e arquitetura, internacionalmente reconhecida e que pela 1ª vez estava acontecendo nas dependências do Parque da Água Branca, em São Paulo.

Como havia lido que a CASACOR SP foi reconhecida pela 3ª vez consecutiva com o Selo de Acessibilidade concedido pela Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, achei que valeria a pena conhecer a mostra, afinal iniciativas inclusivas são sempre bem-vindas.

Cerca de 30% da exposição era gratuita, com circuito livre e aberto ao público. Minha afilhada e eu, ambas pessoas no espectro autista, iniciamos o percurso na área externa, percorrendo um caminho em madeira, que era acessível para pessoas com mobilidade reduzida. Em seguida, passamos por uma grande escultura em madeira ao ar livre que simulava um ninho, com sofás redondos que eram um convite para que os visitantes relaxassem.

Até esta pequena parte do trajeto foi uma experiência agradável e acessível, mas a visita foi encerrada assim que entramos na área fechada da bilheteria, devido a aromatização ambiente excessiva muito presente no ar, que dificultava a respiração.

O que causou frustração não foi a interrupção da visita em si, mas o motivo recorrente: vivenciar experiências em que fragrâncias em excesso dominam os espaços e excluem pessoas. Frustrou principalmente constatar que até mesmo o reconhecimento sobre acessibilidade arquitetônica falhou ao não considerar esse ponto.

Nos últimos anos, a estratégia de marketing olfativo tem se tornado uma marca registrada de muitas lojas, marcas, produtos e espaços públicos. Porém, na maioria das vezes os espaços exageram na aromatização e mesmo que não intencionalmente, ferem o conceito de acessibilidade, pois se torna difícil para pessoas mais sensíveis aos estímulos sensoriais olfativos, como pessoas autistas, pessoas alérgicas ou asmáticas conseguirem respirar.

Entender o impacto das questões sensoriais e considerar todos os sentidos humanos, incluindo o olfato, é primordial para tornaro mundo mais acessível e inclusivo.

Um ambiente acolhedor deve compreender que cada pessoa percebe os estímulos sensoriais de maneira distinta e que todos nós merecemos frequentar todo e qualquer espaço sem sentir desconforto.

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